Moda pelo Petit Bureau

Movida pela paixão sobre tudo aquilo que me seduz e afeta, escrevo sempre que posso a todos que se interessam pelas mesmas coisas que eu. De alguma forma, meu coração precisa deste "escritoriozinho" (le petit bureau) para expressar emoções! Obrigada por estarem avec moi!!!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Blog muito legal!

Uma experiência diferente e cômica em Sisley



“And I'm right by your side
Like a thief in the night
I stand in front of a masterpiece
And I can't tell you why
It hurts so much
To be in love with the masterpiece
'Cause after all
Nothing's indestructible”
Madonna –“Masterpiece”

            Construir um capital cultural de conhecimento sobre a perfumaria não é algo muito fácil. Colecionei e coleciono diversas experiências já durante algum tempo, e, contudo, ainda sempre estou conhecendo coisas novas a este respeito, e me percebo como uma principiante no assunto. Neste mundo de marcas chiques, de uma certa hierarquia de marcas que fui construindo em meu imaginário a partir das formas de experimentar a perfumaria, organizando classes entre os perfumes de luxo, uma outra história marcante em minha vida esta relacionada à grife Sisley. Esta grife, a semelhança de Annick Goutal, é também tida como muito sofisticada, inscrita no patamar daquelas que compra “quem pode” e, para o resto, olhá-la, é uma ação semelhante aos cachorros de rua que assistem atentamente os espetos de frango girando nas grelhas de assar. Em suma, uma “televisão de cachorro”! Neste caso, uma “televisão” para aquelas loucas pela alta perfumaria e cosmética. Sisley é realmente uma grife cara, que preza pela elegância e excelência em qualidade em seus produtos. O nome da grife refere-se ao pintor francês Alfred Sisley. Daí sua ostentação, inclusive representada como uma verdadeira “obra de arte”, pela crítica mais especializada em cosmética e perfumaria, especialmente a de luxo francesa. Posso vislumbrar em Sisley uma ligação intrínseca entre a pintura de quadros e a própria maquiagem, representada em seu elo mais significativo: os pincéis. Bom, mas elucidações históricas a parte, posso dizer que também tive uma petit[1] experiência em Sisley, por dois momentos marcantes. O primeiro deles diz respeito à “televisão de cachorro”. Eu tomei conhecimento de Sisley em uma outra loja, em Curitiba,localizada no Shopping Palladium, chamada Sépha, que, inclusive, tem site de venda on-line de perfumaria e cosmética (sepha.com.br). Em uma das minhas idas à Curitiba, para visitar os familiares do meu marido, um dia desses, o passear pelo referido shopping, no seu último piso, situada num cantinho à direita, está a Sépha. Como toda loja de cosmética e perfumaria – e para variar minhas constantes visitas à Free Itália (no Shopping Mueller) – , a vitrine me chamou atenção, e resolvi entrar e conhecer. Olhando os itens nas prateleiras, todos já me pareciam muito familiares, dadas minhas compulsivas informações (e algumas compras!) no on-line e as idas à Rivera, para consumo (-mismo) em cosmética e perfumaria. Mas, em um balcãozinho à parte dos demais, estavam alguns produtos diferentes. Como eu já ansiava em ver algo novo, fui dar uma conferida. Mas, a caixinha de vidro era fechada, e só sendo possível o acesso em companhia de uma das vendedoras, que pegariam a chave do cadeado que lacrava os produtos em separado. Pedi ajuda, e a moça, gentilmente veio ao meu encontro, com a referida chave em mãos, para me mostrar alguns dos produtos ali contidos. A marca era Sisley, e, para mim, desconhecida até o momento. As embalagens eram divinas, sofisticadas, e não haviam provadores dos produtos. Dei uma boa olhada, e encontrei um lápis de boca (na cor bege ou “nude”, como eu adoro!). Como não tinha provador, eu, como boa garota da classe média, primeiramente, perguntei o preço. Para meu susto, a moça revelou os 190 reais de custo do pequeno lápis. Evidentemente, mais do que depressa, eu recusei, dizendo que “ia pensar” e voltaria depois. Óbvio, que não retornei. Passada a viagem, cheguei em casa, pensando ainda, por vezes, naquele lindo lápis que impactara meus sentidos. Só para ter certeza do preço e da inacessibidade daquele produto, fui dar uma conferida na loja virtual da Sépha. Para minha felicidade mais íntima, estava lá o lápis (e aí já pensei, em meus valores de juízos mais pessoais – nem tanto “luxo” assim!), por inacreditáveis 120 reais, parcelados em 10 vezes sem juros de 12 reais, com frete grátis, via Master, Visa ou América Express. Visto que na sociedade contemporânea do dinheiro, as pessoas conhecem umas as outras apenas pelo limite do seus cartões de créditos, em “débitos” ou “créditos” da conta ou do boleto no final do mês, em um “clique”, era esperar uma semana e correr para o abraço!       Sim, eu tenho o lápis até hoje, e só o uso em ocasiões especiais.
            Uma segunda experiência em Sisley vai do cômico ao engraçado em dez segundos!
            Mais uma vez, eu, procurando informações sobre perfumaria nas revistas de mora, nos questionários malucos que mencionei anteriormente, afinal, se a primeira experiência tinha dado certo, e porque a segunda não daria? Bem, esta segunda experiência baseia-se nas minhas respostas aos questionários de perfume da fina revista “L’Officiel”, em sua versão brasileira (já que é francesa), com os longos ensaios de moda que tomam conta de páginas e mais páginas da revista, além das milhares de fotos com pouquíssimos discursos a respeito. A L’Officiel organiza, anualmente, um Guia de Perfumes, com um material muito completo sobre a perfumaria, em tipos, aromas, notas, variedades, marcas e todo o composto que envolve a perfumaria contemporânea. Em razão disso, e até porque para quem seguiu uma dica da “Contigo” e deu certo, seguir uma dica da L’Officiel seria mais espetacular ainda. Só que não foi bem assim. Fazendo o teste ao responder o questionário, obtive como resposta final a preferência de um perfume da Sisley. Sim, da elegante Sisley, eu deveria, segundo à revista, comprar “L’eau de Soir” – a água da noite, um segredo misterioso só pelo nome! Encontrei para venda nos sites on-line que costumo freqüentar, mas, eram penosos 500 reais para 30ml do valioso “eau de parfum[2]”. Bem, como iria ser muito para meu bolso, resolvi procurar em Rivera, e consegui encontrar no site da Sineriz (sineriz.com.uy), aliás, a única loja que vende Sisley em Rivera. Confirmada a informação da procedência do perfume em Rivera, na ocasião seguinte naquela cidade, eu iria diretamente encontrar meu tão sonhado L’eau de Soir. Dito e feito... Fomos (eu e meu marido) à Rivera, em um dia do início de dezembro de 2010, para compras natalinas anuais, e, antes de tudo, eu precisa, primeiramente, comprar meu perfume tão aguardado o ano todo. Mesmo sem ter sua fragrância decifrada pelo meu olfato, a L’Officiel havia me afirmado, por meio de seus caracteres imagéticos e textuais, que aquele perfume era o ideal para meu tipo de pele, para meu perfil perfumeiro, e eu estava confiando cegamente naquela informação. Entrei determinada pelas portas da Sineriz, encontrei a primeira vendedora que me olhou e falei da minha busca: “-vim comprar o L’eau de Soir, da Sisley!” Lembro da moça, para variar “portunhola”, mais ou menos me dizer, com um olhar satisfeito: “- És muy precioso” Venga comigo!” A semelhança da Sépha em Curitiba, a Sisley também era guardada em um box à parte das demais marcas, e lacrado com um pequeno cadeado. A vendedora abriu, e havia inclusive um provador. Imediatamente, pedi que borrifasse aquele refinado perfume em meu braço, pois, eu precisava, incessantemente, senti-lo. A vendedora assim o fez, e a experiência foi... bem, a experiência ocorreu na medida em que as notas do reconhecido perfume foram se abrindo aos meus sentidos. Existe aqui um ponto crucial, que diz respeito às diferenças, no que diz respeito às referências olfativas da perfumaria para brasileiros (oriundos de um país de clima subtropical, em que o país, em sua maioria de extensão, vive um clima eminentemente quente e, por isso, e por um costume indígena – segundo consta na história – as pessoas tomam banho bem mais) e para os franceses (que vivenciam muito mais o frio, e, reconhecidamente, pouco tomam banho). As notas fazem um efeito diferente para estes dois públicos, e grifes extremamente sofisticadas, que voltam suas criações para o público francês, por exemplo, desconsideram os demais olfatos do mundo em razão de trabalhar para uma clientela bem específica, para os quais remontam suas estratégias e confecções artesanais em cosmética e perfumaria. Dito isso, posso dizer que a minha experiência me lembrou excessivamente o fragrância de um conhecido sabonete dos supermercados e farmácias de todo Brasil: refiro-me ao “Alma de Flores”, aquele sabonete que vem numa caixinha verde, por vezes acompanhado de um talco, e eu acredito até já ter visto uma fragrância, uma colônia para ser mais específica, no kit que pode ser encontrado em qualquer farmácia. Aquele cheiro, do L’eau de Soir, eu sabia que não me era estranho, e logo lembrei: é a versão “francesa” do Alma de Flores, aquele “sabonete da vó”, como é conhecido por uma maioria de mulheres, e não desrespeitando, em absoluto, o gosto estético das senhoras idosas. Para resumo do acontecido, posso dizer que o cheiro não era só enjoativo, ele era “extremamente” enjoativo (acho até que o Alma de Flores é um pouco mais suave!). Mas, imagine um “Alma de Flores” com um belíssimo e eficiente fixador, pois, o valor de um verdadeiro perfume não está apenas na escolha das essências para compor suas notas, mas, sobretudo, no nível de fixação na pele que ele pode apresentar, ou seja, seu fixador tem uma ligação direta com nível de concentração de álcool no produto. Para meu martírio, e para pagar todos os meus pecados em perfumaria, eu tive de andar a Rivera toda, o dia todo, com aquele cheio no meu braço, que, por vezes, me dava até náuseas. Cheguei em panificadoras, bares, pedi água para poder usar o banheiro, e tentar, ao máximo, lavar o braço em cada banheiro que conseguia ir, entre uma compra e outra, uma loja e outra. Também nas lojas, eu cheirei muito café para tentar dispersar das minhas narinas aquele “cheiro da vó”. Depois de toda frustração possível, eu juro: nada é mais potente, em nível de perfumaria, que um fixador francês, que, por excelência, é de luxo. Bela lição, para eu entender, de uma vez por todas, que o perfume é algo, sobretudo experiencial, íntimo e muitíssimo pessoal, para além das revistas e qualquer outro conselheiro artificial da perfumaria que eu possa encontrar.


[1] Do francês, significa pequena.
[2] Existe uma classificação da perfumaria alcóolica relacionada à concentração e nível de diluição em álcool: eau de cologne, eau de toillette, eau de parfum e parfum.

domingo, 28 de outubro de 2012

Uma experiência verdadeiramente do “luxo” em Annick Goutal



            É interessante observação, e desperta novos ângulos de se observar os mesmos fenômenos, quando vou contando, neste espaço, minhas memórias, experiências e vivências, e delineando um recorte peculiar que vai conectando alguns dos motivos pelos quais cheguei a um objeto de pesquisa diferente. Sim, a partir do momento em que eu paro para pensar sobre as diversas razões que me levaram a ater minha pesquisa à perfumaria e cosmética de luxo francesa, a encontrar aí uma perspectiva segmentada do universo do luxo, em seus diversos estereótipos, presente na vida, seja demarcando distinções entre classes, seja nos pequenos agrados intensos que fazemos a nós mesmos em nossos cotidianos, como, por exemplo, comprar ou escolher um tipo de pão ou de café diferente para um lanche mais refinado, em uma “quase boulangerie[1]” das nossas pequenas cidades, eu poderia pensar nas diferentes referências de estudiosos que tenho lido, e suas teorias, conceitos, classificações e remarques, em tese, científicos, sobre o luxo. Mas, como estou, de momento, assoberbada de informações sobre isso, vou me fixar as minhas experiências, à confecção de minha colcha de retalhos nostálgicos, em que tento formular justificativas sobre minhas escolhas. Preciso encontrá-las!
            Voltando ao meu casamento, pois esta experiência remonta parte do que foi o processo de organização pessoal, conjugal e conjuntural do meu casamento. Sim, uma noiva – há quem diga que eu fui quase uma “noiva neurótica!” – tem algumas preocupações para um momento único, e inacreditavelmente rápido da vida. A sensação de abrirem-se as portas de um templo (eu casei na Igreja Católica, pela minha formação, desde a infância, nesta religião) e ver os olhares de todos voltados para si, é única e, certamente, indescritível. As reações são as mais imagináveis possíveis. Eu, por exemplo, chorei durante o percurso até o altar, compulsivamente, que ficou até engraçado no vídeo pós-casamento (aquele em que constam todos os vexames e loucuras possíveis, dado aí uma boa dose de exclusão de vários conteúdos de teor indesejável). Para meu casamento, eu resolvi mandar fazer, quase que artesanalmente o vestido de noiva. Tenho guardado até o hoje, mesmo sem saber o que posso fazer com ele. Comprei os tecidos, escolhi pessoalmente, e praticamente o desenhei, e na medida em que ia ficando pronto, quando eu o vestia durante as provas, ia comprovando minha idealização de vestuário. Enfim, tantas coisas eu escolhi: as cores das flores na igreja e para a decoração do salão de festa, o modelo dos convites, os pratos que compunham o Buffet, as bebidas – a champanhe liberada que pesou nos nossos bolsos (meu e do meu marido) no acerto de contas após a festa. Enfim, tantos detalhes e preocupações que deixam apenas a recordação barata e construída nas gravações, nos álbuns de fotografias e nas memórias daqueles que foram convidados para a festa, logicamente, em inúmeras versões. Mas, voltando às experiências do luxo que penso ter vivenciado para chegar a um programa de mestrado com algumas sustentações que mereceram destaque e atenção das qualificadas professoras titulares da minha linha de pesquisa, destaco aqui uma vivência que agrega luxo (e sim, o casamento é uma cerimônia sempre luxuosa, seja nos espaços mais adornados e sofisticados, seja debaixo de uma árvore ou beira-mar) e perfumaria. Eu digo, para todos que me perguntam sobre perfumes, que não confiem em questionários sobre perfumes contidos em revistas de moda. Mais tarde, vou explicar o porquê.
            Contudo, eu já confiei, e, justamente porque confiei é que recomendo para não fazerem o mesmo. Para mim, o casamento envolvia uma alquimia pessoal, uma mistura do ritual que envolvia a cerimônia tradicional – a igreja, as alianças, o bolo, os drinks, etc – e o estabelecimento de um contrato consentido de lealdade a partir de sentimentos mais profundos. E digo lealdade, pois, considero este um sentimento portador de um significado singular, que está, para além da fidelidade, por exemplo, porque envolve tudo isso, além do companheirismo, do respeito mútuo e do amor. Tal prerrogativa justifica, para mim, o fato da traição ser uma ação sem sentido. Enfim, a discussão é psicológica ao extremo, e seu desenlace levaria páginas e páginas de reflexão, o que, por hora, não vem ao caso. Bem, eu já disse que comprei perfume confiando em questionários duvidosos sobre aromas da perfumaria, que, por vezes, encontramos nestas revistas de moda e maneiras, voltadas para o público feminino. Pois é, foi desta vez, a primeira vez que isso aconteceu. Eu li, há algum tempo, em uma dessas revistas qualquer, penso que era uma “Contigo”, mas, não tenho certeza, depois de responder a algumas perguntas referentes ao meu gosto pessoal, que desembocariam na escolha da fragrância certa para mim, que, um perfume que eu deveria usar era “Les Nuits d’Hadrien”, da grife francesa de alta perfumaria Annick Goutal. Contava no resultado que, este perfume, inclusive era usado pela diva do pop, Madonna, cantora por quem tenho um certo apreço em sua performance e nível de exposição estética no palco (este é outro assunto, para outro momento). Uma das notas que compunha o perfume era a base de Ylang Ylang, uma essência aromática oriental, conhecida por suas conotações representativas de sensualidade, envolvimento, sedução, e outros descritos na revista e que não lembro bem certo. Para resumo da ópera... eu queria casar usando aquele perfume! Eu precisava usá-lo, como símbolo de lealdade, mas também como sentimento de mulher convencida pelo discurso de uma revista a usar algo que não conhece, e porque eu o entendi como referência de glamour e sofisticação. “Gente! A ‘Madonna’ usava!”
            Enfim, eu precisava descobri-lo, pois era o “meu perfume”, e eu ia fazer de tudo. Para variar, já que naquele momento eu vivia o êxtase da cosmética e perfumaria nos sites de compra on-line, fui buscar informações sobre o referido perfume. Encontrei site da grife francesa (em francês, obviamente, o que era um luxo puro para mim!), descobri que todos perfumes da grife eram confeccionados de maneira quase que artesanal, que a empresa da perfumaria havia passado de mãe para filha – de Annick para a sua filha Grabrielle Goutal, e que pouquíssimos frascos eram exportados, de modo ainda que os perfumes podiam ser encomendados na loja da grife, localizada em uma das ruas chiques de Paris. Um detalhe me gritou ao olhar nestas informações e nas imagens que busquei no Google: as publicidades (afinal, eu sou uma comunicadora, e, estudei por quatro anos um pouquinho de semiótica e semiologia durante o tempo em que estive na faculdade) eram diferentes daquelas que eu costumava ver nos sites de venda on-line de perfumes e cosmética, e também daquelas que eu via em Rivera. Eram mais simples, voltadas para o frasco do próprio perfume e suas cores, e não dos corpos esculpidos, quase desnudos e sedutores das famosas internacionais. As preocupações daquele segmento de perfumes eram bem diferentes das que eu costumava ver, e, consequentemente, as estratégias mercadológicas. Realizei uma grande busca, em todos os sites que eu conhecia relacionados aos perfumes e cosméticas, e nada encontrei. Nenhum deles vendia aquela marca. Era o ano de 2007. Lembro que mais ou menos um mês antes da data do casamento, meu marido foi viajar para a fronteira com o Paraguai, e ele, junto com um colega de trabalho (aliás, o Alexandre foi nosso padrinho de casamento) tinham além da missão da Força Aérea, a missão de encontrar meu perfume. Inclusive, o Alexandre, que é de São Paulo, cidade de São José dos Campos, pediu para sua mãe tentar encontrar o perfume por lá, mas a tentativa foi sem sucesso, assim como a tentativa no Paraguai. Segundo eles me contaram, foram por todas as lojas que poderiam encontrar este perfume (que também não tinha em nenhuma loja de Rivera, porque eu tentei por lá), mas nada conseguiram. Foi quando realizei uma segunda pesquisa na internet, via Google, e encontrei uma lista no próprio site da Annick Goutal, que não tinha visto da primeira vez, pois, só comecei o curso de francês um ano depois disso, com os endereços e telefones de venda em alguns lugares do mundo. Encontrei uma loja que revendia, com matriz em São Paulo, no chiquérrimo Shopping Iguatemi, e sua filial, no Shopping Cristal, em uma loja chamada Petit Parfum, advinha onde? Na terra natal do meu marido – Curitiba! Eu fora “salva pelo Gongo!” Na mesma noite, liguei para minha querida sogra – Maria Angélica, detalhando para ela o nome do perfume, a marca, a importância de buscá-lo e, o principal: onde encontrá-lo. Dada a minha ansiedade, no dia seguinte, ela, por toda sua sutileza como pessoa e por ser também uma mulher vaidosa, foi tentar encontrar o valioso perfume. Para “felicidade geral da ‘nação’ ligada ao casamento”, ela teve sucesso e encontrou. Ganhei dela, como presente de casamento, afinal, eram 300 reais para 30ml da raridade. Ela me contou ainda que a vendedora comentara com ela que vinham apenas 100 frascos por ano dos perfumes daquela marca para serem vendidos na loja. Radiante, e usando muito deste perfume, enfim, eu casei, e o uso sempre que posso. Para minha sorte, o cheiro é realmente maravilhoso, e eu adorei. Contudo, é um perfume de verão, uma fragrância um pouco cítrica, mas, muito marcante, pois, dura horas na pele, e, por isso, vale cada centavo pago por ele. É uma fragrância como poucas, e é também, um dos perfumes que Madonna também usa!
            Passados três anos do casamento, agora já mais rotineiro, mergulhado na difícil habilidade de manter a paixão e, ao mesmo tempo, ver a cara amassada um do outro pela manhã, pagar as contas no final do mês, ir ao supermercado, ao médico, à farmácia, adoecer e pegar resfriados fortes neste clima louco de Santa Maria, mantendo ainda a excitante sedução nos momentos em que se pode. Belo dia de 2010, estou eu, navegando no on-line, agora, totalmente incorporado no meu cotidiano, incrementado lascivo com o uso das redes sociais, regresso ao site Sacks.com.br, para dar uma olhadinha nas novidades. Repassando a barra pendular lateral que contém, em ordem alfabética, todas as marcas que o site dispõe de produtos para venda, encontro, surpreendentemente, logo no início, Annick Goutal. O nome, que até então me conotava a “crème de la crème” da perfumaria francesa de luxo, quase inatingível e intocável, aparece como parte de um site de vendas de perfumaria e cosmética, para o Brasil inteiro, e quem sabe alguns países vizinhos, vendendo, inclusive, o meu tão procurado “perfume de casamento”, em uma larga escala da produção em série. Sim, porque com 100 frascos por ano eles, certamente, não sustentariam as vendas num site de vendas on-line. Foi o fim. Perdeu parte do glamour que eu ostentava ao dizer que tinha um “Annick Goutal”, com sua publicidade diferenciada em condições imagéticas e textuais, exemplo que citei inclusive em um trabalho de semiologia que apresentei em uma das disciplinas que compunham o programa da minha especialização em Comunicação e Projetos de Mídia. Sim, o Annick Goutal perdeu seu misticismo, um pouco do seu brilho e de seu esplendor exibido nos tons de dourado que compõem seu frasco. Agora, eu tenho um frasco também vendido na Sacks, mas, mesmo assim, um perfume ainda muito diferenciado.


[1] Do francês, significa panificadora.

Amei esta relação de livros!

http://www.biblioparfum.net/index.php?cat=luxe

domingo, 29 de julho de 2012

Um experiência de luxo?


            Por vezes, vivemos situações que se parecem com cenários de teatros instalados, ao vivo, ao nosso redor. Quando nos damos conta, estamos protagonizando ou assistindo algo dentro de um contexto em que só nós sabemos o significado que aquele momento assume em nossas vidas. Nesta história, não foi diferente.
            Como todo casal recém-casado, sem filhos, e vivendo uma contínua mistura entre namoro e lua-de-mel, ainda cheio de programinhas nos fins-de-semana – cinema, barzinhos, restaurantes e outros passeios agradáveis – , eu e o meu já marido – Wagner, se eu ainda não o apresentei! – após uma festa bem tradicional, realizada em 1º de setembro de 2007, às 19h30, no Santuário de Nossa Senhora Medianeira, uma lua-de-mel (e esta foi a “verdadeira”, com direito a tour e passeios em duas lindas cidades – Buenos Aires e Santiago do Chile), continuamos um período de amor intenso, típico dos casais de classe média recém-casados, que trabalham a semana toda em suas atividades e ocupações profissionais, e, que, aos fins-de-semana, se dão a certos luxos em momentos juntos. Em Santa Maria, uma cidade que ainda conserva certos ares e práticas interioranas (relacionado à estrutura de cidades maiores e capitais), poucas opções encontramos, em nível de vida noturna. Algumas casas noturnas, poucos bares, restaurantes bem pontuais (só há pouco tempo tivemos o prazer de ter restaurantes japoneses na cidade). Mesmo assim, penso sempre “positivamente” – pensemos em “qualidade” e não “quantidade”. Um lugar que se encaixa nestes moldes e que frequetamos, eu e meu marido, de maneira até assídua, é um bar chamado Zeppellin. Casa aconchegante, que preza por valores bem tradicionais respaldados aos embalos do blues e do rock enquanto estilos musicais tão veemente assegurados pelos donos – a Mila e o Marcelo – em seus perfis bem autênticos para se ter um bar em uma cidade do interior gaúcho. Enfim, comida boa, bebida boa (cervejas importadas de qualidade e sempre servidas geladas!), música agradável, passam ser os requisitos mínimos, mas fundamentais de casais para curtirem a noite sem ter que se sujeitar mais aos já passados de moda “inferninhos do dance” – as conhecidas por aqui como “boates”. Em uma dessas idas ao Zeppellin, nos sábados à noite, evento que exigia de mim um ritual de beleza de mais ou menos duas horas, entre arrumar cabelo, maquiagem, uma bela combinação de vestuário e acessórios, depois de algumas horas de indecisão... Sim, certos tipos de luxo evocam meus sentimentos mais intensos, e faço um da cerimônia social um instante luxuoso em minha vida!
            Esta era uma noite de outono – pré-inverno. Sinceramente, não lembro a data precisa, mas lembro muito bem da chuva que era torrencial, intensa e verdadeiramente molhada. Para chegar ao Zeppellin, bastava dar a volta no quarteirão do prédio onde morávamos ainda naquele ano, pegar uma rua e seguir reto. Aquele dia, quase não se enxergava as definições dos carros, tanto era o volume de água que inundava as ruas, o que não nos impediu de sair e curtir um pouco a música e todas as outras características agradáveis do Zeppellin. Lá pelas 9 horas da noite, alinhamos em direção ao bar, e ao passar pelos inúmeros sinaleiros que cortam a rua e permeiam a chegada até o bar, uma parada me chamou muito a atenção. Na esquina entre a rua do Zeppellin (Rua Visconde de Pelotas) com uma das avenidas principais do centro da cidade (Avenida Presidente Vargas), ao meu marido parar sua “paixão de carro” no semáforo – um PT Cruiser da marca Chrysler, que ele jura nunca mais se desfazer, olhei para o lado, através do vidro, e avistei um bebê, dentro de um carrinho feito de arames e pneus velhos, coberto com uma camada de papelão sobre a cabeça, em que pelas abas escorriam o torrente da água da chuva. Uma mulher (parecia ser sua mãe), juntava em pé e em meio aquela chuva toda, na lixeira que estava na calçada ao lado da rua, várias caixas de papelão, e as colocava por sobre aquelas que cobriam o bebê dentro do carrinho. Mesmo pensando, por várias óticas que eu poderia enumerar aqui, que podem ser de cunho espírita (resgatamos nossos carmas passados), político, econômico (as oportunidade não são iguais para todos) ou cultural (as mulheres engravidam por que querem), confesso que mil coisas me passaram pela cabeça ao ver aquela cena, mas nenhuma delas me doeu mais do que ver aquele bebê, e enquadrei todo meu pensamento naquela imagem. Muitas justificativas poderiam compor meu dossiê sobre os problemas das diferenças sociais, muitas críticas eu poderia fazer, muitas soluções a comunidade ou a sociedade poderia propor (e penso o mesmo com outras situações, como por exemplo o abandono de idosos em lares ou dos animais, que vagueiam pelas ruas das cidades), enfim, seriam tantas reflexões, mas, nenhuma delas pesou mais na minha consciência do que a comparação entre o meu conforto e adornamento ou embelezamento dentro de um carro muito chique em contraponto aquela drástica e enigmática diferença – discrepância – social que eu presenciara, mesmo pensando ainda que a recíproca não era a mesma, ou não! Sim, na riqueza ou na decadência humana daquela cena, pude visualizar uma dualidade perversa do luxo, totalmente sem precedentes. Percebi porque vivo em um país em desenvolvimento, relegado ao “terceiro mundo”, embora ainda não tenha vivenciado esta situação em países desenvolvidos. Contudo, conoto o significado de “terceiro mundo” a um universo de injustiças, sofrimentos e misérias da humanidade, em suas mesquinharias e frivolidades mais idiossincrásicas. Em uma sensação que misturava impotência e pecado, acabei psicologicamente com meu divertimento semana noturno, mesmo sem refleti-lo em profundidade com meu marido – meu leal e fiel companheiro. Aquele foi um momento de silêncio, para além de todos os meus valores e conjunturas morais, sociais, humanas, ou de qualquer outra esfera que fundamenta nossas relações e trocas em sociedade.Só no outro dia, desviando a atenção para outras coisas do meu dia-a-dia, eu voltei a “respirar” com menos tensão.

domingo, 24 de junho de 2012

A descoberta da diferenciação em ArtDeco


            É preciso esclarecer que os alemães também competem no mundo da cosmética. E sim, eles são bons nos produtos que oferecem. O mundo da cosmética e da perfumaria não é uma exclusividade francesa, porém, os franceses ainda são uma referência mundial, dada aí sua importância social, cultural, artística e econômica para o desenvolvimento da lógica mercadológica da cosmética e da perfumaria no mundo todo. O velho e bom savoir-faire francês vai que vai! Mas, entendo que, mesmo os italianos, até os brasileiros e outros ainda, tem suas prerrogativas sustentadas no mundo da cosmética. Bem, para além das minhas experiências relatadas até aqui, vou prosseguir, e tentar chega a questões mais plausíveis de explicação desta minha conexão com a perfumaria e a cosmética (em especial, francesa).
             Num intermédio de tempo entre o término da minha faculdade, em 2005, e a entrada no mercado de trabalho – fui assessora de comunicação do Hospital Universitário de Santa Maria, por 4 anos, para mim, existiu um período de desligamento com o mundo da academia, em que, após quatro anos de faculdade, resolvi apenas trabalhar, e fazer alguns cursos meio que aleatoriamente. Durante a faculdade, fiz curso de inglês. E depois, algumas coisa me interessavam mais, e outras, menos. Decidi, naquele mar de indecisão que pairava frente à necessidade de voltar à academia e refazer certos caminhos tortuosos e pedaços da estrada deixados para trás, fazer um curso de francês, para aprender um outro idioma, que, para mim, a priori, parecia muito difícil. Bem, eu pensava que deveria, pelo menos, fazer uma especialização, pois, o mercado é competitivo, e como eu só tive a certeza sempre que não gostaria ser uma profissional da saúde, diferentemente da minha irmã, que é enfermeira, mas, acabei trabalhando em um complexo hospital, eu precisava de maneira quase urgente e imediata mudar aquela situação. Pensei, naquele momento, que um curso de francês seria bem interessante para um começo. Começaram as aulas, e dada a minha dificuldade com a pronúncia (que carrego até hoje, e tento resolver com as aulas particulares), fui seguindo semana após semana, e entendendo palavras em suas significações, que utilizamos inclusive no português, em pontos de intersecção da lingüística complicada de todas as línguas derivadas do latim (em especial, relacionado à mistura sofisticada das origens da língua francesa – em num contexto germânico-latino). Para além de simplesmente aprender uma nova língua, o idioma francês despertou em mim um interesse pela cultura francesa, pelos modos de organização da vida na França, ver documentários e explorar, nas conversas com as professoras (muitas que me deram aula, moraram por um bom tempo naquele país), e na internet, evidentemente. Não, eu não fui à Europa (e mais especificamente para a França) ainda, mas, pretendo fazê-lo, muito em breve.
            Contudo, a medida que mais palavrinhas eu aprendia por aula, mais informações eu sentia necessidade de ter, mesmo para relacionar com aquilo que estava interagindo durante as aulas. Durante o curso, conheci uma colega, hoje, uma amiga, muito frenética pela cultura francesa. A “Udi” (Maria de Lourdes, é assim, carinhosamente chamada por todos) sempre fala “Eu nasci no lugar errado!”, quando se refere à aspiração de uma vida mais “francesa” sua própria vida. Nossa relação se intensificou, nas trocas sobre a estética francesa. Neste momento, eu já conhecia boas informações sobre a perfumaria e a cosmética; já estava até meio saturada das mesmas coisas de sempre, e procurava, certas diferenciações. Era preciso expandir meu leque de conhecimento, e eu procurava, quase que desesperadamente, vias de acesso para isso.
            Eu precisava de novas interfaces, novos produtos, novos objetos e novas marcas de inspiração – estava em busca de novas informações, porém, muito seletas e específicas. Vislumbrei então, na interação com a nova amiga, uma possibilidade de aumentar este campo de conhecimento, por um novo viés – a tentativa de compreender melhor porque os franceses são tão “bons” neste “métier” de perfumaria e cosmética. Por meio de uma relação de amizade recíproca, comecei a colocar em prática a busca por novos segmentos e estilos franceses, na medida em que trocava informações, por vezes fúteis, sobre culinária, móveis, cheiros e modos de arrumar a casa. Neste mundo, fomos (eu e a Udi) tentando, mesmo que precariamente, desvendar um pouco do mundo francês, adequando, é claro, aos novos modos de interpretação.
            Neste mesmo intervalo de tempo, eu descobria novas informações sobre a cosmética. Uma delas foi, a partir de um lindo batom cor-de-boca (=bege), que eu comprei no site de vendas da Free Itália – de uma marca, até então desconhecida por mim, chama ArtDeco. Depois de mais uma exploração no on-line, descobri que a procedência desta marca, que então passou a ser muito cultuada por mim –  por toda excelência de uso verificada neste primeiro produto, e em outros que fui descobrindo e adquirindo pela plataforma on-line – , era alemã, o que me surpreendeu, pois, dado aquele profundo apreço e contato que eu vinha tendo com os produtos e uma certa ótica cultural francesa, que ia aos poucos se imiscuindo no meu estilo de vida, por meio das trocas com minha amiga, dentre outros fatores, apreciar e preferir cosmética alemã à francesa, naquele instante, era algo quase impraticável, ou mesmo, inconcebível. Uma coisa é certa: esta abertura de novas possibilidades e apropriações que fui organizando em meu cotidiano, só foi realmente possível com a influência e a ajuda da internet, no modo como a fui incorporando em minha vida, e, penso que, nas épocas em que estamos vivendo, determinadas “reviravoltas” culturais são possíveis, por meio de novas descobertas, mas, só podem acontecer quando determinadas interfaces são desenvolvidas, entre nós mesmos e outras possibilidades, sejam elas físicas ou espirituais.