Moda pelo Petit Bureau

Movida pela paixão sobre tudo aquilo que me seduz e afeta, escrevo sempre que posso a todos que se interessam pelas mesmas coisas que eu. De alguma forma, meu coração precisa deste "escritoriozinho" (le petit bureau) para expressar emoções! Obrigada por estarem avec moi!!!

domingo, 29 de julho de 2012

Um experiência de luxo?


            Por vezes, vivemos situações que se parecem com cenários de teatros instalados, ao vivo, ao nosso redor. Quando nos damos conta, estamos protagonizando ou assistindo algo dentro de um contexto em que só nós sabemos o significado que aquele momento assume em nossas vidas. Nesta história, não foi diferente.
            Como todo casal recém-casado, sem filhos, e vivendo uma contínua mistura entre namoro e lua-de-mel, ainda cheio de programinhas nos fins-de-semana – cinema, barzinhos, restaurantes e outros passeios agradáveis – , eu e o meu já marido – Wagner, se eu ainda não o apresentei! – após uma festa bem tradicional, realizada em 1º de setembro de 2007, às 19h30, no Santuário de Nossa Senhora Medianeira, uma lua-de-mel (e esta foi a “verdadeira”, com direito a tour e passeios em duas lindas cidades – Buenos Aires e Santiago do Chile), continuamos um período de amor intenso, típico dos casais de classe média recém-casados, que trabalham a semana toda em suas atividades e ocupações profissionais, e, que, aos fins-de-semana, se dão a certos luxos em momentos juntos. Em Santa Maria, uma cidade que ainda conserva certos ares e práticas interioranas (relacionado à estrutura de cidades maiores e capitais), poucas opções encontramos, em nível de vida noturna. Algumas casas noturnas, poucos bares, restaurantes bem pontuais (só há pouco tempo tivemos o prazer de ter restaurantes japoneses na cidade). Mesmo assim, penso sempre “positivamente” – pensemos em “qualidade” e não “quantidade”. Um lugar que se encaixa nestes moldes e que frequetamos, eu e meu marido, de maneira até assídua, é um bar chamado Zeppellin. Casa aconchegante, que preza por valores bem tradicionais respaldados aos embalos do blues e do rock enquanto estilos musicais tão veemente assegurados pelos donos – a Mila e o Marcelo – em seus perfis bem autênticos para se ter um bar em uma cidade do interior gaúcho. Enfim, comida boa, bebida boa (cervejas importadas de qualidade e sempre servidas geladas!), música agradável, passam ser os requisitos mínimos, mas fundamentais de casais para curtirem a noite sem ter que se sujeitar mais aos já passados de moda “inferninhos do dance” – as conhecidas por aqui como “boates”. Em uma dessas idas ao Zeppellin, nos sábados à noite, evento que exigia de mim um ritual de beleza de mais ou menos duas horas, entre arrumar cabelo, maquiagem, uma bela combinação de vestuário e acessórios, depois de algumas horas de indecisão... Sim, certos tipos de luxo evocam meus sentimentos mais intensos, e faço um da cerimônia social um instante luxuoso em minha vida!
            Esta era uma noite de outono – pré-inverno. Sinceramente, não lembro a data precisa, mas lembro muito bem da chuva que era torrencial, intensa e verdadeiramente molhada. Para chegar ao Zeppellin, bastava dar a volta no quarteirão do prédio onde morávamos ainda naquele ano, pegar uma rua e seguir reto. Aquele dia, quase não se enxergava as definições dos carros, tanto era o volume de água que inundava as ruas, o que não nos impediu de sair e curtir um pouco a música e todas as outras características agradáveis do Zeppellin. Lá pelas 9 horas da noite, alinhamos em direção ao bar, e ao passar pelos inúmeros sinaleiros que cortam a rua e permeiam a chegada até o bar, uma parada me chamou muito a atenção. Na esquina entre a rua do Zeppellin (Rua Visconde de Pelotas) com uma das avenidas principais do centro da cidade (Avenida Presidente Vargas), ao meu marido parar sua “paixão de carro” no semáforo – um PT Cruiser da marca Chrysler, que ele jura nunca mais se desfazer, olhei para o lado, através do vidro, e avistei um bebê, dentro de um carrinho feito de arames e pneus velhos, coberto com uma camada de papelão sobre a cabeça, em que pelas abas escorriam o torrente da água da chuva. Uma mulher (parecia ser sua mãe), juntava em pé e em meio aquela chuva toda, na lixeira que estava na calçada ao lado da rua, várias caixas de papelão, e as colocava por sobre aquelas que cobriam o bebê dentro do carrinho. Mesmo pensando, por várias óticas que eu poderia enumerar aqui, que podem ser de cunho espírita (resgatamos nossos carmas passados), político, econômico (as oportunidade não são iguais para todos) ou cultural (as mulheres engravidam por que querem), confesso que mil coisas me passaram pela cabeça ao ver aquela cena, mas nenhuma delas me doeu mais do que ver aquele bebê, e enquadrei todo meu pensamento naquela imagem. Muitas justificativas poderiam compor meu dossiê sobre os problemas das diferenças sociais, muitas críticas eu poderia fazer, muitas soluções a comunidade ou a sociedade poderia propor (e penso o mesmo com outras situações, como por exemplo o abandono de idosos em lares ou dos animais, que vagueiam pelas ruas das cidades), enfim, seriam tantas reflexões, mas, nenhuma delas pesou mais na minha consciência do que a comparação entre o meu conforto e adornamento ou embelezamento dentro de um carro muito chique em contraponto aquela drástica e enigmática diferença – discrepância – social que eu presenciara, mesmo pensando ainda que a recíproca não era a mesma, ou não! Sim, na riqueza ou na decadência humana daquela cena, pude visualizar uma dualidade perversa do luxo, totalmente sem precedentes. Percebi porque vivo em um país em desenvolvimento, relegado ao “terceiro mundo”, embora ainda não tenha vivenciado esta situação em países desenvolvidos. Contudo, conoto o significado de “terceiro mundo” a um universo de injustiças, sofrimentos e misérias da humanidade, em suas mesquinharias e frivolidades mais idiossincrásicas. Em uma sensação que misturava impotência e pecado, acabei psicologicamente com meu divertimento semana noturno, mesmo sem refleti-lo em profundidade com meu marido – meu leal e fiel companheiro. Aquele foi um momento de silêncio, para além de todos os meus valores e conjunturas morais, sociais, humanas, ou de qualquer outra esfera que fundamenta nossas relações e trocas em sociedade.Só no outro dia, desviando a atenção para outras coisas do meu dia-a-dia, eu voltei a “respirar” com menos tensão.