O apuro e o gosto estético residem
na arte. Uma construção artesanal que vai aos poucos, sendo moldada no ser
humano como um todo. Quando chego aos meus 30 anos, vejo uma mulher muito
diferente daquela adolescente de 17 anos que vai comprar perfumes com sua mãe –
“Dona” Alda. Antes de contar esta experiência, é preciso apresentar um perfil
de minha mãe, uma senhora, hoje com seus 70 anos, funcionária pública federal
aposentada, que, em razão de seu trabalho com o público na Universidade Federal
de Santa Maria, sempre foi, na medida do possível, um pouco preocupada com a
aparência física. Quando eu era pequena, lembro dela dizendo que as coisas que
ela mais gostava eram “jóias, perfumes e sapatos”, e, de vez enquanto, uma
maquiagem. Lembro das fotografias dela em eventos, como a formatura do 2º Grau
Técnico do meu irmão mais velho - Marcelo, em que ela usou um vestido preto
longo, um colete de cetim amarelo e um jogo de semi-jóias em strass bastante
refinado. Também nos bailes de debutante da minha irmã mais velha (já
mencionada neste memorial), ela remarcava ao meu olhar os cabelos sempre
curtos, mas, muito bem feitos, e uma boa maquiagem, além dos trajes bem
adequados a senhoras de sua idade em eventos tradicionalistas gaúchos. Sim,
minha irmã debutou em Centros Tradicionalistas Gaúchos, o que é bem diferente
de mim, que, aos 15 anos, preferi um computador às tradicionais festas que
apresentam as jovens aos círculos sociais. Enfim, posso perceber a influência
breve mas significativa que minha mãe teve sobre o que sou hoje, em minhas
escolhas, nas minhas construções pessoais e em tudo o que observo e de que maneira observo.
Bom, passada minha infância, eu
cresci em uma família de classe média, chefiada por uma mulher – minha mãe, sem
a presença da figura paterna. Como criança, nunca fui vaidosa, e me preocupava
mais com o conhecimento na escola do que com exibir uma roupinha bonita para as
colegas ou para pertencem a determinados grupos. Como adolescente, algumas
coisas foram se modificando. Os adolescentes descobrem os hormônios no corpo, e
a partir deles, vivem sensações diferenciadas na vida, descobrem-se em suas
sexualidades; as meninas, em suas feminilidades. Foi na adolescência que pude
conhecer meu lado da vaidade, em se olhar no espelho, em maquiar-se, em fazer
as unhas, e ganhar os olhares dos meninos no colégio. Eu fiz um segundo grau
técnico, assim como meu irmão. Estudei em uma classe de 30 meninos e 4 gurias.
Foi nesta época que aprendi a conviver com o sexo oposto, na definição de
valores como amizade, companheirismo, paixão e coleguismo. Formei-me em
eletrotécnica no Colégio Técnico Industrial de Santa Maria, em 1998, mas,
naquele ano, eu já sabia que jamais seguiria qualquer carreira relacionada às
engenharias ou às exatas. Contudo, a experiência foi válida por aspectos já
citados e por uma gama de outros aspectos que eu poderia citar aqui, mas, que,
de momento, não vem ao caso.
No meu último ano no colégio, no 3º
ano, aos meus 16 para 17 anos, lembro com muita clareza, da minha primeira
oportunidade com a cosmética francesa. O primeiro contato que tive com estes
produtos de tanto impacto na minha formação teórica e social, aconteceu numa
tarde qualquer do mês de maio, em que fui ao centro da cidade com minha mãe (já
que morávamos em um bairro afastado, chamado Camobi – local onde minha mãe mora
até hoje) para pagar algumas contas e comprar algumas coisas. Lembro que
entramos na Loja Renner, até hoje, localizada no calçadão central da cidade, e
reconhecida como a única loja que vende, em Santa Maria, este tipo muito
peculiar de cosmética de altíssima qualidade (e preço também, pelos menos para
a maioria média de pessoas). A Renner tem seu espaço de venda de cosméticos
localizado à direita da única entrada da loja. Naquele dia, meio chuvoso, eu
lembro, entramos direto para aquele “reduto” cheiroso da loja, e inala os
sentidos e traduz uma sensação de bem-estar. Eu, completamente alheia a tudo
aquilo, e sem muito entender do que realmente minha mãe ia comprar, juntamente
com ela e minha irmã, chegamos ao balcão, onde uma vendedora, que até hoje
trabalha naquele lugar, chamada Salete - eu lembro, veio ao nosso encontro para
o atendimento. Uma coisa era certa: aquela seria uma tarde longa. Minha mãe é
bem seletiva e muito autêntica em suas escolhas. Se gosta, gosta; se não gosta,
não faz rodeios! A vendedora, gentilmente perguntou o que procurávamos. Minha
mãe respondeu que, inicialmente, um perfume, “bem cheiroso!”. Como de praxe, a
vendedora saiu e, em breve, voltou cheia de opções, com vários mostruários de
vários perfumes em mãos. Minha mãe logo começou a experimentar, nós também,
mas, os gostos não se fechavam e eram muito diferentes. O que ela gostava, nós
não gostávamos; o que nós, eu e a minha irmã, gostávamos, ela não gastava.
“Democraticamente”, ela levou o que “ela” gostava – o docíssimo “Dolce Vita”,
de Christian Dior. Mas, como em quase toda compra de perfume, nunca se compra
um perfume sem seus acompanhamentos, pois, seria, para o bom gaúcho, como
comprar “a carne para o churrasco, e esquecer dos ‘apetrechos’ que fazem da
churrascada o que ela realmente é”. Desta forma, minha mãe, como eu naquele
outro momento anteriormente contado, e por influência da habilidosa vendedora,
comprou outros artigos ligados à cosmética e perfumaria: um creme (minha mãe
simplesmente adora cremes faciais), um batom Helena Rubistein (naquela época,
ainda vendiam Helena Rubistein no Brasil), um pó facial solto (e não compacto),
em uma linda caixinha preta com dourada, da Lâncome, e, por fim, mas não menos
importante, um lápis de sobrancelha, que tenho o restinho até hoje (crayon pour
surcils) também da Lâncome. Como eu sempre tive os pêlos da sobrancelha muito
finos, preciso de utilizar esses lápis para que o desenho dela apareça em meu
rosto. Este lápis foi o primeiro de muitos outros que sempre utilizei, pois,
posso não passar absolutamente nada no rosto, mas, sem um bom lápis da
sobrancelha em não saio de casa, tamanha é meu complexo em relação a isso.
Deste modo, talvez este tenha sido o cosmético de maior influência na minha
vida estetizada, e o marco do meu primeiro contato, sobretudo com a cosmética
francesa.
Contemporaneamente, mesmo dada a
minha paixão declarada pelos perfumes, esta experiência merece um olhar mais
detalhado porque, assim como a “criação de Adão”, pintada no teto da Capela
Sistina, no Vaticano, esboça o contato entre o próprio homem e a divindade
metafísica, posso dizer que, este momento, significou para mim, esta conexão
quase espiritual com a transformação, artificial e ao mesmo tempo natural, que
a cosmética proporciona em mim mesma, enquanto mulher inserida nas representações
sociais, em meio aos estereótipos de moda e felicidade materialista. Sim, esta
conexão cultural, por meio dos bens da cosmética representa o lado material da
vida humana, tão essencial as vivências entre objetos e trocas, que se tornam
rituais sagrados no cotidiano feminino.
Com o passar do tempo, sinto que meu
gosto, mesmo em nível social ou em nível físico, no que se refere ao olfato e
ao tato, tem se aprimorado na busca pela explicação que tanto tem despertado
meu interesse. Vejo o poder da perfumaria não só nos frascos caros e adornados
que fazem o charme das prateleiras das grandes lojas de perfume. Mas, vejo,
principalmente, sua força sublime em coisas simples, como em meu gosto eterno
pelas especiarias: o cravo, a canela, o manjericão, e, hodiernamente, o cheiro
provençal das lavandas. Este caminho que venho traçando, em meus
entrelaçamentos pessoais com a perfumaria e a cosmética, provocaram em mim
mudanças profundas e significativas, que podem ser traduzidas, a partir da
minha adolescência, com o uso do mel e açúcar para as limpezas de pele, até a
minha vida contemporânea, em virtudes ou vícios que me fazem escolher o francês
Citröen, o vestuário Black tie, da fina paleta de cores que inspiram Karl
Lagerfeld (o branco, o bege e o preto, que são heranças da “Madame” para a hoje
grife – Chanel), modelando preferências, que são construídas a partir de
referências mais sóbrias e eternizadas da moda. Em momentos felizes de consumo
de vestuário, algumas vendedoras de lojas que freqüento sempre me falam: “Preto
é preto!”
Nestas sutilezas, vejo novos tipos
de ostentação, bem mais simples do que as insígnias apresentadas nas vestes da
refinada senhora da fila em Rivera (e aí não sei dizer nada sobre o nível de
falsificação, porque nem tudo que parece é!), mas, nestes pequenos recortes de
minha alma, começo a vislumbrar uma resposta para o que posso compartilhar como
entendimento de luxo.