Moda pelo Petit Bureau

Movida pela paixão sobre tudo aquilo que me seduz e afeta, escrevo sempre que posso a todos que se interessam pelas mesmas coisas que eu. De alguma forma, meu coração precisa deste "escritoriozinho" (le petit bureau) para expressar emoções! Obrigada por estarem avec moi!!!

domingo, 6 de maio de 2012

O berço e as heranças tradicionais femininas: de mãe para filha


            O apuro e o gosto estético residem na arte. Uma construção artesanal que vai aos poucos, sendo moldada no ser humano como um todo. Quando chego aos meus 30 anos, vejo uma mulher muito diferente daquela adolescente de 17 anos que vai comprar perfumes com sua mãe – “Dona” Alda. Antes de contar esta experiência, é preciso apresentar um perfil de minha mãe, uma senhora, hoje com seus 70 anos, funcionária pública federal aposentada, que, em razão de seu trabalho com o público na Universidade Federal de Santa Maria, sempre foi, na medida do possível, um pouco preocupada com a aparência física. Quando eu era pequena, lembro dela dizendo que as coisas que ela mais gostava eram “jóias, perfumes e sapatos”, e, de vez enquanto, uma maquiagem. Lembro das fotografias dela em eventos, como a formatura do 2º Grau Técnico do meu irmão mais velho - Marcelo, em que ela usou um vestido preto longo, um colete de cetim amarelo e um jogo de semi-jóias em strass bastante refinado. Também nos bailes de debutante da minha irmã mais velha (já mencionada neste memorial), ela remarcava ao meu olhar os cabelos sempre curtos, mas, muito bem feitos, e uma boa maquiagem, além dos trajes bem adequados a senhoras de sua idade em eventos tradicionalistas gaúchos. Sim, minha irmã debutou em Centros Tradicionalistas Gaúchos, o que é bem diferente de mim, que, aos 15 anos, preferi um computador às tradicionais festas que apresentam as jovens aos círculos sociais. Enfim, posso perceber a influência breve mas significativa que minha mãe teve sobre o que sou hoje, em minhas escolhas, nas minhas construções pessoais e em tudo o que observo e de que maneira observo.
            Bom, passada minha infância, eu cresci em uma família de classe média, chefiada por uma mulher – minha mãe, sem a presença da figura paterna. Como criança, nunca fui vaidosa, e me preocupava mais com o conhecimento na escola do que com exibir uma roupinha bonita para as colegas ou para pertencem a determinados grupos. Como adolescente, algumas coisas foram se modificando. Os adolescentes descobrem os hormônios no corpo, e a partir deles, vivem sensações diferenciadas na vida, descobrem-se em suas sexualidades; as meninas, em suas feminilidades. Foi na adolescência que pude conhecer meu lado da vaidade, em se olhar no espelho, em maquiar-se, em fazer as unhas, e ganhar os olhares dos meninos no colégio. Eu fiz um segundo grau técnico, assim como meu irmão. Estudei em uma classe de 30 meninos e 4 gurias. Foi nesta época que aprendi a conviver com o sexo oposto, na definição de valores como amizade, companheirismo, paixão e coleguismo. Formei-me em eletrotécnica no Colégio Técnico Industrial de Santa Maria, em 1998, mas, naquele ano, eu já sabia que jamais seguiria qualquer carreira relacionada às engenharias ou às exatas. Contudo, a experiência foi válida por aspectos já citados e por uma gama de outros aspectos que eu poderia citar aqui, mas, que, de momento, não vem ao caso.
            No meu último ano no colégio, no 3º ano, aos meus 16 para 17 anos, lembro com muita clareza, da minha primeira oportunidade com a cosmética francesa. O primeiro contato que tive com estes produtos de tanto impacto na minha formação teórica e social, aconteceu numa tarde qualquer do mês de maio, em que fui ao centro da cidade com minha mãe (já que morávamos em um bairro afastado, chamado Camobi – local onde minha mãe mora até hoje) para pagar algumas contas e comprar algumas coisas. Lembro que entramos na Loja Renner, até hoje, localizada no calçadão central da cidade, e reconhecida como a única loja que vende, em Santa Maria, este tipo muito peculiar de cosmética de altíssima qualidade (e preço também, pelos menos para a maioria média de pessoas). A Renner tem seu espaço de venda de cosméticos localizado à direita da única entrada da loja. Naquele dia, meio chuvoso, eu lembro, entramos direto para aquele “reduto” cheiroso da loja, e inala os sentidos e traduz uma sensação de bem-estar. Eu, completamente alheia a tudo aquilo, e sem muito entender do que realmente minha mãe ia comprar, juntamente com ela e minha irmã, chegamos ao balcão, onde uma vendedora, que até hoje trabalha naquele lugar, chamada Salete - eu lembro, veio ao nosso encontro para o atendimento. Uma coisa era certa: aquela seria uma tarde longa. Minha mãe é bem seletiva e muito autêntica em suas escolhas. Se gosta, gosta; se não gosta, não faz rodeios! A vendedora, gentilmente perguntou o que procurávamos. Minha mãe respondeu que, inicialmente, um perfume, “bem cheiroso!”. Como de praxe, a vendedora saiu e, em breve, voltou cheia de opções, com vários mostruários de vários perfumes em mãos. Minha mãe logo começou a experimentar, nós também, mas, os gostos não se fechavam e eram muito diferentes. O que ela gostava, nós não gostávamos; o que nós, eu e a minha irmã, gostávamos, ela não gastava. “Democraticamente”, ela levou o que “ela” gostava – o docíssimo “Dolce Vita”, de Christian Dior. Mas, como em quase toda compra de perfume, nunca se compra um perfume sem seus acompanhamentos, pois, seria, para o bom gaúcho, como comprar “a carne para o churrasco, e esquecer dos ‘apetrechos’ que fazem da churrascada o que ela realmente é”. Desta forma, minha mãe, como eu naquele outro momento anteriormente contado, e por influência da habilidosa vendedora, comprou outros artigos ligados à cosmética e perfumaria: um creme (minha mãe simplesmente adora cremes faciais), um batom Helena Rubistein (naquela época, ainda vendiam Helena Rubistein no Brasil), um pó facial solto (e não compacto), em uma linda caixinha preta com dourada, da Lâncome, e, por fim, mas não menos importante, um lápis de sobrancelha, que tenho o restinho até hoje (crayon pour surcils) também da Lâncome. Como eu sempre tive os pêlos da sobrancelha muito finos, preciso de utilizar esses lápis para que o desenho dela apareça em meu rosto. Este lápis foi o primeiro de muitos outros que sempre utilizei, pois, posso não passar absolutamente nada no rosto, mas, sem um bom lápis da sobrancelha em não saio de casa, tamanha é meu complexo em relação a isso. Deste modo, talvez este tenha sido o cosmético de maior influência na minha vida estetizada, e o marco do meu primeiro contato, sobretudo com a cosmética francesa.
            Contemporaneamente, mesmo dada a minha paixão declarada pelos perfumes, esta experiência merece um olhar mais detalhado porque, assim como a “criação de Adão”, pintada no teto da Capela Sistina, no Vaticano, esboça o contato entre o próprio homem e a divindade metafísica, posso dizer que, este momento, significou para mim, esta conexão quase espiritual com a transformação, artificial e ao mesmo tempo natural, que a cosmética proporciona em mim mesma, enquanto mulher inserida nas representações sociais, em meio aos estereótipos de moda e felicidade materialista. Sim, esta conexão cultural, por meio dos bens da cosmética representa o lado material da vida humana, tão essencial as vivências entre objetos e trocas, que se tornam rituais sagrados no cotidiano feminino.
            Com o passar do tempo, sinto que meu gosto, mesmo em nível social ou em nível físico, no que se refere ao olfato e ao tato, tem se aprimorado na busca pela explicação que tanto tem despertado meu interesse. Vejo o poder da perfumaria não só nos frascos caros e adornados que fazem o charme das prateleiras das grandes lojas de perfume. Mas, vejo, principalmente, sua força sublime em coisas simples, como em meu gosto eterno pelas especiarias: o cravo, a canela, o manjericão, e, hodiernamente, o cheiro provençal das lavandas. Este caminho que venho traçando, em meus entrelaçamentos pessoais com a perfumaria e a cosmética, provocaram em mim mudanças profundas e significativas, que podem ser traduzidas, a partir da minha adolescência, com o uso do mel e açúcar para as limpezas de pele, até a minha vida contemporânea, em virtudes ou vícios que me fazem escolher o francês Citröen, o vestuário Black tie, da fina paleta de cores que inspiram Karl Lagerfeld (o branco, o bege e o preto, que são heranças da “Madame” para a hoje grife – Chanel), modelando preferências, que são construídas a partir de referências mais sóbrias e eternizadas da moda. Em momentos felizes de consumo de vestuário, algumas vendedoras de lojas que freqüento sempre me falam: “Preto é preto!”
            Nestas sutilezas, vejo novos tipos de ostentação, bem mais simples do que as insígnias apresentadas nas vestes da refinada senhora da fila em Rivera (e aí não sei dizer nada sobre o nível de falsificação, porque nem tudo que parece é!), mas, nestes pequenos recortes de minha alma, começo a vislumbrar uma resposta para o que posso compartilhar como entendimento de luxo.