“And I'm right by your side
Like a thief in the night
I stand in front of a masterpiece
And I can't tell you why
It hurts so much
To be in love with the masterpiece
'Cause after all
Nothing's indestructible”
Madonna –“Masterpiece”
Construir
um capital cultural de conhecimento sobre a perfumaria não é algo muito fácil.
Colecionei e coleciono diversas experiências já durante algum tempo, e,
contudo, ainda sempre estou conhecendo coisas novas a este respeito, e me
percebo como uma principiante no assunto. Neste mundo de marcas chiques, de uma
certa hierarquia de marcas que fui construindo em meu imaginário a partir das
formas de experimentar a perfumaria, organizando classes entre os perfumes de
luxo, uma outra história marcante em minha vida esta relacionada à grife
Sisley. Esta grife, a semelhança de Annick Goutal, é também tida como muito
sofisticada, inscrita no patamar daquelas que compra “quem pode” e, para o
resto, olhá-la, é uma ação semelhante aos cachorros de rua que assistem
atentamente os espetos de frango girando nas grelhas de assar. Em suma, uma
“televisão de cachorro”! Neste caso, uma “televisão” para aquelas loucas pela
alta perfumaria e cosmética. Sisley é realmente uma grife cara, que preza pela
elegância e excelência em qualidade em seus produtos. O nome da grife refere-se
ao pintor francês Alfred Sisley. Daí sua ostentação, inclusive representada
como uma verdadeira “obra de arte”, pela crítica mais especializada em
cosmética e perfumaria, especialmente a de luxo francesa. Posso vislumbrar em
Sisley uma ligação intrínseca entre a pintura de quadros e a própria maquiagem,
representada em seu elo mais significativo: os pincéis. Bom, mas elucidações
históricas a parte, posso dizer que também tive uma petit[1]
experiência em Sisley, por dois momentos marcantes. O primeiro deles diz respeito
à “televisão de cachorro”. Eu tomei conhecimento de Sisley em uma outra loja,
em Curitiba,localizada no Shopping Palladium, chamada Sépha, que, inclusive,
tem site de venda on-line de perfumaria e cosmética (sepha.com.br). Em uma das
minhas idas à Curitiba, para visitar os familiares do meu marido, um dia
desses, o passear pelo referido shopping, no seu último piso, situada num
cantinho à direita, está a Sépha. Como toda loja de cosmética e perfumaria – e
para variar minhas constantes visitas à Free Itália (no Shopping Mueller) – , a
vitrine me chamou atenção, e resolvi entrar e conhecer. Olhando os itens nas
prateleiras, todos já me pareciam muito familiares, dadas minhas compulsivas
informações (e algumas compras!) no on-line e as idas à Rivera, para consumo (-mismo)
em cosmética e perfumaria. Mas, em um balcãozinho à parte dos demais, estavam
alguns produtos diferentes. Como eu já ansiava em ver algo novo, fui dar uma
conferida. Mas, a caixinha de vidro era fechada, e só sendo possível o acesso
em companhia de uma das vendedoras, que pegariam a chave do cadeado que lacrava
os produtos em separado. Pedi ajuda, e a moça, gentilmente veio ao meu
encontro, com a referida chave em mãos, para me mostrar alguns dos produtos ali
contidos. A marca era Sisley, e, para mim, desconhecida até o momento. As
embalagens eram divinas, sofisticadas, e não haviam provadores dos produtos.
Dei uma boa olhada, e encontrei um lápis de boca (na cor bege ou “nude”, como
eu adoro!). Como não tinha provador, eu, como boa garota da classe média,
primeiramente, perguntei o preço. Para meu susto, a moça revelou os 190 reais
de custo do pequeno lápis. Evidentemente, mais do que depressa, eu recusei,
dizendo que “ia pensar” e voltaria depois. Óbvio, que não retornei. Passada a
viagem, cheguei em casa, pensando ainda, por vezes, naquele lindo lápis que
impactara meus sentidos. Só para ter certeza do preço e da inacessibidade
daquele produto, fui dar uma conferida na loja virtual da Sépha. Para minha
felicidade mais íntima, estava lá o lápis (e aí já pensei, em meus valores de
juízos mais pessoais – nem tanto “luxo” assim!), por inacreditáveis 120 reais,
parcelados em 10 vezes sem juros de 12 reais, com frete grátis, via Master,
Visa ou América Express. Visto que na sociedade contemporânea do dinheiro, as
pessoas conhecem umas as outras apenas pelo limite do seus cartões de créditos,
em “débitos” ou “créditos” da conta ou do boleto no final do mês, em um
“clique”, era esperar uma semana e correr para o abraço! Sim, eu tenho o lápis até hoje, e só o uso
em ocasiões especiais.
Uma segunda experiência em Sisley
vai do cômico ao engraçado em dez segundos!
Mais uma vez, eu, procurando
informações sobre perfumaria nas revistas de mora, nos questionários malucos
que mencionei anteriormente, afinal, se a primeira experiência tinha dado
certo, e porque a segunda não daria? Bem, esta segunda experiência baseia-se
nas minhas respostas aos questionários de perfume da fina revista “L’Officiel”,
em sua versão brasileira (já que é francesa), com os longos ensaios de moda que
tomam conta de páginas e mais páginas da revista, além das milhares de fotos
com pouquíssimos discursos a respeito. A L’Officiel organiza, anualmente, um
Guia de Perfumes, com um material muito completo sobre a perfumaria, em tipos,
aromas, notas, variedades, marcas e todo o composto que envolve a perfumaria
contemporânea. Em razão disso, e até porque para quem seguiu uma dica da
“Contigo” e deu certo, seguir uma dica da L’Officiel seria mais espetacular
ainda. Só que não foi bem assim. Fazendo o teste ao responder o questionário,
obtive como resposta final a preferência de um perfume da Sisley. Sim, da
elegante Sisley, eu deveria, segundo à revista, comprar “L’eau de Soir” – a
água da noite, um segredo misterioso só pelo nome! Encontrei para venda nos
sites on-line que costumo freqüentar, mas, eram penosos 500 reais para 30ml do
valioso “eau de parfum[2]”.
Bem, como iria ser muito para meu bolso, resolvi procurar em Rivera, e consegui
encontrar no site da Sineriz (sineriz.com.uy), aliás, a única loja que vende
Sisley em Rivera. Confirmada a informação da procedência do perfume em Rivera,
na ocasião seguinte naquela cidade, eu iria diretamente encontrar meu tão
sonhado L’eau de Soir. Dito e feito... Fomos (eu e meu marido) à Rivera, em um
dia do início de dezembro de 2010, para compras natalinas anuais, e, antes de
tudo, eu precisa, primeiramente, comprar meu perfume tão aguardado o ano todo. Mesmo
sem ter sua fragrância decifrada pelo meu olfato, a L’Officiel havia me
afirmado, por meio de seus caracteres imagéticos e textuais, que aquele perfume
era o ideal para meu tipo de pele, para meu perfil perfumeiro, e eu estava
confiando cegamente naquela informação. Entrei determinada pelas portas da
Sineriz, encontrei a primeira vendedora que me olhou e falei da minha busca:
“-vim comprar o L’eau de Soir, da Sisley!” Lembro da moça, para variar
“portunhola”, mais ou menos me dizer, com um olhar satisfeito: “- És muy
precioso” Venga comigo!” A semelhança da Sépha em Curitiba, a Sisley também era
guardada em um box à parte das demais marcas, e lacrado com um pequeno cadeado.
A vendedora abriu, e havia inclusive um provador. Imediatamente, pedi que
borrifasse aquele refinado perfume em meu braço, pois, eu precisava,
incessantemente, senti-lo. A vendedora assim o fez, e a experiência foi... bem,
a experiência ocorreu na medida em que as notas do reconhecido perfume foram se
abrindo aos meus sentidos. Existe aqui um ponto crucial, que diz respeito às
diferenças, no que diz respeito às referências olfativas da perfumaria para
brasileiros (oriundos de um país de clima subtropical, em que o país, em sua
maioria de extensão, vive um clima eminentemente quente e, por isso, e por um
costume indígena – segundo consta na história – as pessoas tomam banho bem
mais) e para os franceses (que vivenciam muito mais o frio, e,
reconhecidamente, pouco tomam banho). As notas fazem um efeito diferente para
estes dois públicos, e grifes extremamente sofisticadas, que voltam suas
criações para o público francês, por exemplo, desconsideram os demais olfatos
do mundo em razão de trabalhar para uma clientela bem específica, para os quais
remontam suas estratégias e confecções artesanais em cosmética e perfumaria.
Dito isso, posso dizer que a minha experiência me lembrou excessivamente o
fragrância de um conhecido sabonete dos supermercados e farmácias de todo
Brasil: refiro-me ao “Alma de Flores”, aquele sabonete que vem numa caixinha
verde, por vezes acompanhado de um talco, e eu acredito até já ter visto uma
fragrância, uma colônia para ser mais específica, no kit que pode ser
encontrado em qualquer farmácia. Aquele cheiro, do L’eau de Soir, eu sabia que
não me era estranho, e logo lembrei: é a versão “francesa” do Alma de Flores,
aquele “sabonete da vó”, como é conhecido por uma maioria de mulheres, e não
desrespeitando, em absoluto, o gosto estético das senhoras idosas. Para resumo
do acontecido, posso dizer que o cheiro não era só enjoativo, ele era
“extremamente” enjoativo (acho até que o Alma de Flores é um pouco mais suave!).
Mas, imagine um “Alma de Flores” com um belíssimo e eficiente fixador, pois, o
valor de um verdadeiro perfume não está apenas na escolha das essências para
compor suas notas, mas, sobretudo, no nível de fixação na pele que ele pode
apresentar, ou seja, seu fixador tem uma ligação direta com nível de
concentração de álcool no produto. Para meu martírio, e para pagar todos os
meus pecados em perfumaria, eu tive de andar a Rivera toda, o dia todo, com
aquele cheio no meu braço, que, por vezes, me dava até náuseas. Cheguei em
panificadoras, bares, pedi água para poder usar o banheiro, e tentar, ao
máximo, lavar o braço em cada banheiro que conseguia ir, entre uma compra e
outra, uma loja e outra. Também nas lojas, eu cheirei muito café para tentar
dispersar das minhas narinas aquele “cheiro da vó”. Depois de toda frustração
possível, eu juro: nada é mais potente, em nível de perfumaria, que um fixador
francês, que, por excelência, é de luxo. Bela lição, para eu entender, de uma
vez por todas, que o perfume é algo, sobretudo experiencial, íntimo e
muitíssimo pessoal, para além das revistas e qualquer outro conselheiro
artificial da perfumaria que eu possa encontrar.
Um comentário:
achei o teu blog justamente procurando pelo L'eau du soir, que não se acha nos free shops da fronteira. Sinto muito que não gostes do cheiro, eu acho espetacular. Comprei em Paris e poupo tanto com medo que acabe. Nas lojas do Brasil é extremamente caro. É um perfume para o inverno, mas não acho que seja sequer parecido com o Alma de Flores que minha avó usava e que me trás lembranças da infância. Vou procurar em Rivera e tomara que ache. Da última vez que estive lá não encontrei.
Postar um comentário