Por vezes, vivemos situações que se
parecem com cenários de teatros instalados, ao vivo, ao nosso redor. Quando nos
damos conta, estamos protagonizando ou assistindo algo dentro de um contexto em
que só nós sabemos o significado que aquele momento assume em nossas vidas.
Nesta história, não foi diferente.
Como todo casal recém-casado, sem
filhos, e vivendo uma contínua mistura entre namoro e lua-de-mel, ainda cheio
de programinhas nos fins-de-semana – cinema, barzinhos, restaurantes e outros
passeios agradáveis – , eu e o meu já marido – Wagner, se eu ainda não o
apresentei! – após uma festa bem tradicional, realizada em 1º de setembro de
2007, às 19h30, no Santuário de Nossa Senhora Medianeira, uma lua-de-mel (e
esta foi a “verdadeira”, com direito a tour e passeios em duas lindas cidades –
Buenos Aires e Santiago do Chile), continuamos um período de amor intenso,
típico dos casais de classe média recém-casados, que trabalham a semana toda em
suas atividades e ocupações profissionais, e, que, aos fins-de-semana, se dão a
certos luxos em momentos juntos. Em Santa Maria, uma cidade que ainda conserva
certos ares e práticas interioranas (relacionado à estrutura de cidades maiores
e capitais), poucas opções encontramos, em nível de vida noturna. Algumas casas
noturnas, poucos bares, restaurantes bem pontuais (só há pouco tempo tivemos o
prazer de ter restaurantes japoneses na cidade). Mesmo assim, penso sempre
“positivamente” – pensemos em “qualidade” e não “quantidade”. Um lugar que se
encaixa nestes moldes e que frequetamos, eu e meu marido, de maneira até
assídua, é um bar chamado Zeppellin. Casa aconchegante, que preza por valores
bem tradicionais respaldados aos embalos do blues e do rock enquanto estilos
musicais tão veemente assegurados pelos donos – a Mila e o Marcelo – em seus
perfis bem autênticos para se ter um bar em uma cidade do interior gaúcho.
Enfim, comida boa, bebida boa (cervejas importadas de qualidade e sempre
servidas geladas!), música agradável, passam ser os requisitos mínimos, mas
fundamentais de casais para curtirem a noite sem ter que se sujeitar mais aos
já passados de moda “inferninhos do dance” – as conhecidas por aqui como
“boates”. Em uma dessas idas ao Zeppellin, nos sábados à noite, evento que
exigia de mim um ritual de beleza de mais ou menos duas horas, entre arrumar
cabelo, maquiagem, uma bela combinação de vestuário e acessórios, depois de
algumas horas de indecisão... Sim, certos tipos de luxo evocam meus sentimentos
mais intensos, e faço um da cerimônia social um instante luxuoso em minha vida!
Esta era uma noite de outono –
pré-inverno. Sinceramente, não lembro a data precisa, mas lembro muito bem da
chuva que era torrencial, intensa e verdadeiramente molhada. Para chegar ao
Zeppellin, bastava dar a volta no quarteirão do prédio onde morávamos ainda
naquele ano, pegar uma rua e seguir reto. Aquele dia, quase não se enxergava as
definições dos carros, tanto era o volume de água que inundava as ruas, o que
não nos impediu de sair e curtir um pouco a música e todas as outras
características agradáveis do Zeppellin. Lá pelas 9 horas da noite, alinhamos
em direção ao bar, e ao passar pelos inúmeros sinaleiros que cortam a rua e
permeiam a chegada até o bar, uma parada me chamou muito a atenção. Na esquina
entre a rua do Zeppellin (Rua Visconde de Pelotas) com uma das avenidas
principais do centro da cidade (Avenida Presidente Vargas), ao meu marido parar
sua “paixão de carro” no semáforo – um PT Cruiser da marca Chrysler, que ele
jura nunca mais se desfazer, olhei para o lado, através do vidro, e avistei um
bebê, dentro de um carrinho feito de arames e pneus velhos, coberto com uma
camada de papelão sobre a cabeça, em que pelas abas escorriam o torrente da
água da chuva. Uma mulher (parecia ser sua mãe), juntava em pé e em meio aquela
chuva toda, na lixeira que estava na calçada ao lado da rua, várias caixas de
papelão, e as colocava por sobre aquelas que cobriam o bebê dentro do carrinho.
Mesmo pensando, por várias óticas que eu poderia enumerar aqui, que podem ser
de cunho espírita (resgatamos nossos carmas passados), político, econômico (as
oportunidade não são iguais para todos) ou cultural (as mulheres engravidam por
que querem), confesso que mil coisas me passaram pela cabeça ao ver aquela
cena, mas nenhuma delas me doeu mais do que ver aquele bebê, e enquadrei todo
meu pensamento naquela imagem. Muitas justificativas poderiam compor meu dossiê
sobre os problemas das diferenças sociais, muitas críticas eu poderia fazer,
muitas soluções a comunidade ou a sociedade poderia propor (e penso o mesmo com
outras situações, como por exemplo o abandono de idosos em lares ou dos
animais, que vagueiam pelas ruas das cidades), enfim, seriam tantas reflexões,
mas, nenhuma delas pesou mais na minha consciência do que a comparação entre o
meu conforto e adornamento ou embelezamento dentro de um carro muito chique em
contraponto aquela drástica e enigmática diferença – discrepância – social que
eu presenciara, mesmo pensando ainda que a recíproca não era a mesma, ou não! Sim,
na riqueza ou na decadência humana daquela cena, pude visualizar uma dualidade
perversa do luxo, totalmente sem precedentes. Percebi porque vivo em um país em
desenvolvimento, relegado ao “terceiro mundo”, embora ainda não tenha vivenciado
esta situação em países desenvolvidos. Contudo, conoto o significado de
“terceiro mundo” a um universo de injustiças, sofrimentos e misérias da
humanidade, em suas mesquinharias e frivolidades mais idiossincrásicas. Em uma
sensação que misturava impotência e pecado, acabei psicologicamente com meu
divertimento semana noturno, mesmo sem refleti-lo em profundidade com meu
marido – meu leal e fiel companheiro. Aquele foi um momento de silêncio, para
além de todos os meus valores e conjunturas morais, sociais, humanas, ou de
qualquer outra esfera que fundamenta nossas relações e trocas em sociedade.Só
no outro dia, desviando a atenção para outras coisas do meu dia-a-dia, eu
voltei a “respirar” com menos tensão.
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