É interessante observação, e
desperta novos ângulos de se observar os mesmos fenômenos, quando vou contando,
neste espaço, minhas memórias, experiências e vivências, e delineando um
recorte peculiar que vai conectando alguns dos motivos pelos quais cheguei a um
objeto de pesquisa diferente. Sim, a partir do momento em que eu paro para
pensar sobre as diversas razões que me levaram a ater minha pesquisa à
perfumaria e cosmética de luxo francesa, a encontrar aí uma perspectiva
segmentada do universo do luxo, em seus diversos estereótipos, presente na
vida, seja demarcando distinções entre classes, seja nos pequenos agrados
intensos que fazemos a nós mesmos em nossos cotidianos, como, por exemplo,
comprar ou escolher um tipo de pão ou de café diferente para um lanche mais
refinado, em uma “quase boulangerie[1]” das
nossas pequenas cidades, eu poderia pensar nas diferentes referências de
estudiosos que tenho lido, e suas teorias, conceitos, classificações e
remarques, em tese, científicos, sobre o luxo. Mas, como estou, de momento,
assoberbada de informações sobre isso, vou me fixar as minhas experiências, à
confecção de minha colcha de retalhos nostálgicos, em que tento formular
justificativas sobre minhas escolhas. Preciso encontrá-las!
Voltando ao meu casamento, pois esta
experiência remonta parte do que foi o processo de organização pessoal,
conjugal e conjuntural do meu casamento. Sim, uma noiva – há quem diga que eu
fui quase uma “noiva neurótica!” – tem algumas preocupações para um momento único,
e inacreditavelmente rápido da vida. A sensação de abrirem-se as portas de um
templo (eu casei na Igreja Católica, pela minha formação, desde a infância,
nesta religião) e ver os olhares de todos voltados para si, é única e,
certamente, indescritível. As reações são as mais imagináveis possíveis. Eu,
por exemplo, chorei durante o percurso até o altar, compulsivamente, que ficou
até engraçado no vídeo pós-casamento (aquele em que constam todos os vexames e
loucuras possíveis, dado aí uma boa dose de exclusão de vários conteúdos de
teor indesejável). Para meu casamento, eu resolvi mandar fazer, quase que
artesanalmente o vestido de noiva. Tenho guardado até o hoje, mesmo sem saber o
que posso fazer com ele. Comprei os tecidos, escolhi pessoalmente, e praticamente
o desenhei, e na medida em que ia ficando pronto, quando eu o vestia durante as
provas, ia comprovando minha idealização de vestuário. Enfim, tantas coisas eu
escolhi: as cores das flores na igreja e para a decoração do salão de festa, o
modelo dos convites, os pratos que compunham o Buffet, as bebidas – a champanhe
liberada que pesou nos nossos bolsos (meu e do meu marido) no acerto de contas
após a festa. Enfim, tantos detalhes e preocupações que deixam apenas a
recordação barata e construída nas gravações, nos álbuns de fotografias e nas
memórias daqueles que foram convidados para a festa, logicamente, em inúmeras
versões. Mas, voltando às experiências do luxo que penso ter vivenciado para
chegar a um programa de mestrado com algumas sustentações que mereceram
destaque e atenção das qualificadas professoras titulares da minha linha de
pesquisa, destaco aqui uma vivência que agrega luxo (e sim, o casamento é uma
cerimônia sempre luxuosa, seja nos espaços mais adornados e sofisticados, seja
debaixo de uma árvore ou beira-mar) e perfumaria. Eu digo, para todos que me
perguntam sobre perfumes, que não confiem em questionários sobre perfumes contidos
em revistas de moda. Mais tarde, vou explicar o porquê.
Contudo, eu já confiei, e,
justamente porque confiei é que recomendo para não fazerem o mesmo. Para mim, o
casamento envolvia uma alquimia pessoal, uma mistura do ritual que envolvia a
cerimônia tradicional – a igreja, as alianças, o bolo, os drinks, etc – e o
estabelecimento de um contrato consentido de lealdade a partir de sentimentos
mais profundos. E digo lealdade, pois, considero este um sentimento portador de
um significado singular, que está, para além da fidelidade, por exemplo, porque
envolve tudo isso, além do companheirismo, do respeito mútuo e do amor. Tal
prerrogativa justifica, para mim, o fato da traição ser uma ação sem sentido.
Enfim, a discussão é psicológica ao extremo, e seu desenlace levaria páginas e
páginas de reflexão, o que, por hora, não vem ao caso. Bem, eu já disse que
comprei perfume confiando em questionários duvidosos sobre aromas da
perfumaria, que, por vezes, encontramos nestas revistas de moda e maneiras,
voltadas para o público feminino. Pois é, foi desta vez, a primeira vez que
isso aconteceu. Eu li, há algum tempo, em uma dessas revistas qualquer, penso
que era uma “Contigo”, mas, não tenho certeza, depois de responder a algumas
perguntas referentes ao meu gosto pessoal, que desembocariam na escolha da
fragrância certa para mim, que, um perfume que eu deveria usar era “Les Nuits
d’Hadrien”, da grife francesa de alta perfumaria Annick Goutal. Contava no
resultado que, este perfume, inclusive era usado pela diva do pop, Madonna,
cantora por quem tenho um certo apreço em sua performance e nível de exposição
estética no palco (este é outro assunto, para outro momento). Uma das notas que
compunha o perfume era a base de Ylang Ylang, uma essência aromática oriental,
conhecida por suas conotações representativas de sensualidade, envolvimento,
sedução, e outros descritos na revista e que não lembro bem certo. Para resumo
da ópera... eu queria casar usando aquele perfume! Eu precisava usá-lo, como
símbolo de lealdade, mas também como sentimento de mulher convencida pelo
discurso de uma revista a usar algo que não conhece, e porque eu o entendi como
referência de glamour e sofisticação. “Gente! A ‘Madonna’ usava!”
Enfim, eu precisava descobri-lo,
pois era o “meu perfume”, e eu ia fazer de tudo. Para variar, já que naquele
momento eu vivia o êxtase da cosmética e perfumaria nos sites de compra
on-line, fui buscar informações sobre o referido perfume. Encontrei site da
grife francesa (em francês, obviamente, o que era um luxo puro para mim!),
descobri que todos perfumes da grife eram confeccionados de maneira quase que
artesanal, que a empresa da perfumaria havia passado de mãe para filha – de
Annick para a sua filha Grabrielle Goutal, e que pouquíssimos frascos eram
exportados, de modo ainda que os perfumes podiam ser encomendados na loja da
grife, localizada em uma das ruas chiques de Paris. Um detalhe me gritou ao
olhar nestas informações e nas imagens que busquei no Google: as publicidades
(afinal, eu sou uma comunicadora, e, estudei por quatro anos um pouquinho de
semiótica e semiologia durante o tempo em que estive na faculdade) eram diferentes
daquelas que eu costumava ver nos sites de venda on-line de perfumes e
cosmética, e também daquelas que eu via em Rivera. Eram mais simples, voltadas
para o frasco do próprio perfume e suas cores, e não dos corpos esculpidos,
quase desnudos e sedutores das famosas internacionais. As preocupações daquele
segmento de perfumes eram bem diferentes das que eu costumava ver, e,
consequentemente, as estratégias mercadológicas. Realizei uma grande busca, em
todos os sites que eu conhecia relacionados aos perfumes e cosméticas, e nada
encontrei. Nenhum deles vendia aquela marca. Era o ano de 2007. Lembro que mais
ou menos um mês antes da data do casamento, meu marido foi viajar para a
fronteira com o Paraguai, e ele, junto com um colega de trabalho (aliás, o
Alexandre foi nosso padrinho de casamento) tinham além da missão da Força Aérea,
a missão de encontrar meu perfume. Inclusive, o Alexandre, que é de São Paulo,
cidade de São José dos Campos, pediu para sua mãe tentar encontrar o perfume
por lá, mas a tentativa foi sem sucesso, assim como a tentativa no Paraguai.
Segundo eles me contaram, foram por todas as lojas que poderiam encontrar este
perfume (que também não tinha em nenhuma loja de Rivera, porque eu tentei por
lá), mas nada conseguiram. Foi quando realizei uma segunda pesquisa na
internet, via Google, e encontrei uma lista no próprio site da Annick Goutal,
que não tinha visto da primeira vez, pois, só comecei o curso de francês um ano
depois disso, com os endereços e telefones de venda em alguns lugares do mundo.
Encontrei uma loja que revendia, com matriz em São Paulo, no chiquérrimo
Shopping Iguatemi, e sua filial, no Shopping Cristal, em uma loja chamada Petit
Parfum, advinha onde? Na terra natal do meu marido – Curitiba! Eu fora “salva
pelo Gongo!” Na mesma noite, liguei para minha querida sogra – Maria Angélica,
detalhando para ela o nome do perfume, a marca, a importância de buscá-lo e, o
principal: onde encontrá-lo. Dada a minha ansiedade, no dia seguinte, ela, por
toda sua sutileza como pessoa e por ser também uma mulher vaidosa, foi tentar
encontrar o valioso perfume. Para “felicidade geral da ‘nação’ ligada ao
casamento”, ela teve sucesso e encontrou. Ganhei dela, como presente de
casamento, afinal, eram 300 reais para 30ml da raridade. Ela me contou ainda
que a vendedora comentara com ela que vinham apenas 100 frascos por ano dos
perfumes daquela marca para serem vendidos na loja. Radiante, e usando muito
deste perfume, enfim, eu casei, e o uso sempre que posso. Para minha sorte, o
cheiro é realmente maravilhoso, e eu adorei. Contudo, é um perfume de verão,
uma fragrância um pouco cítrica, mas, muito marcante, pois, dura horas na pele,
e, por isso, vale cada centavo pago por ele. É uma fragrância como poucas, e é
também, um dos perfumes que Madonna também usa!
Passados três anos do casamento,
agora já mais rotineiro, mergulhado na difícil habilidade de manter a paixão e,
ao mesmo tempo, ver a cara amassada um do outro pela manhã, pagar as contas no
final do mês, ir ao supermercado, ao médico, à farmácia, adoecer e pegar
resfriados fortes neste clima louco de Santa Maria, mantendo ainda a excitante
sedução nos momentos em que se pode. Belo dia de 2010, estou eu, navegando no
on-line, agora, totalmente incorporado no meu cotidiano, incrementado lascivo
com o uso das redes sociais, regresso ao site Sacks.com.br, para dar uma
olhadinha nas novidades. Repassando a barra pendular lateral que contém, em
ordem alfabética, todas as marcas que o site dispõe de produtos para venda,
encontro, surpreendentemente, logo no início, Annick Goutal. O nome, que até
então me conotava a “crème de la crème” da perfumaria francesa de luxo, quase
inatingível e intocável, aparece como parte de um site de vendas de perfumaria
e cosmética, para o Brasil inteiro, e quem sabe alguns países vizinhos, vendendo,
inclusive, o meu tão procurado “perfume de casamento”, em uma larga escala da
produção em série. Sim, porque com 100 frascos por ano eles, certamente, não
sustentariam as vendas num site de vendas on-line. Foi o fim. Perdeu parte do
glamour que eu ostentava ao dizer que tinha um “Annick Goutal”, com sua publicidade
diferenciada em condições imagéticas e textuais, exemplo que citei inclusive em
um trabalho de semiologia que apresentei em uma das disciplinas que compunham o
programa da minha especialização em Comunicação e Projetos de Mídia. Sim, o
Annick Goutal perdeu seu misticismo, um pouco do seu brilho e de seu esplendor
exibido nos tons de dourado que compõem seu frasco. Agora, eu tenho um frasco
também vendido na Sacks, mas, mesmo assim, um perfume ainda muito diferenciado.
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