Moda pelo Petit Bureau

Movida pela paixão sobre tudo aquilo que me seduz e afeta, escrevo sempre que posso a todos que se interessam pelas mesmas coisas que eu. De alguma forma, meu coração precisa deste "escritoriozinho" (le petit bureau) para expressar emoções! Obrigada por estarem avec moi!!!

domingo, 28 de outubro de 2012

Uma experiência verdadeiramente do “luxo” em Annick Goutal



            É interessante observação, e desperta novos ângulos de se observar os mesmos fenômenos, quando vou contando, neste espaço, minhas memórias, experiências e vivências, e delineando um recorte peculiar que vai conectando alguns dos motivos pelos quais cheguei a um objeto de pesquisa diferente. Sim, a partir do momento em que eu paro para pensar sobre as diversas razões que me levaram a ater minha pesquisa à perfumaria e cosmética de luxo francesa, a encontrar aí uma perspectiva segmentada do universo do luxo, em seus diversos estereótipos, presente na vida, seja demarcando distinções entre classes, seja nos pequenos agrados intensos que fazemos a nós mesmos em nossos cotidianos, como, por exemplo, comprar ou escolher um tipo de pão ou de café diferente para um lanche mais refinado, em uma “quase boulangerie[1]” das nossas pequenas cidades, eu poderia pensar nas diferentes referências de estudiosos que tenho lido, e suas teorias, conceitos, classificações e remarques, em tese, científicos, sobre o luxo. Mas, como estou, de momento, assoberbada de informações sobre isso, vou me fixar as minhas experiências, à confecção de minha colcha de retalhos nostálgicos, em que tento formular justificativas sobre minhas escolhas. Preciso encontrá-las!
            Voltando ao meu casamento, pois esta experiência remonta parte do que foi o processo de organização pessoal, conjugal e conjuntural do meu casamento. Sim, uma noiva – há quem diga que eu fui quase uma “noiva neurótica!” – tem algumas preocupações para um momento único, e inacreditavelmente rápido da vida. A sensação de abrirem-se as portas de um templo (eu casei na Igreja Católica, pela minha formação, desde a infância, nesta religião) e ver os olhares de todos voltados para si, é única e, certamente, indescritível. As reações são as mais imagináveis possíveis. Eu, por exemplo, chorei durante o percurso até o altar, compulsivamente, que ficou até engraçado no vídeo pós-casamento (aquele em que constam todos os vexames e loucuras possíveis, dado aí uma boa dose de exclusão de vários conteúdos de teor indesejável). Para meu casamento, eu resolvi mandar fazer, quase que artesanalmente o vestido de noiva. Tenho guardado até o hoje, mesmo sem saber o que posso fazer com ele. Comprei os tecidos, escolhi pessoalmente, e praticamente o desenhei, e na medida em que ia ficando pronto, quando eu o vestia durante as provas, ia comprovando minha idealização de vestuário. Enfim, tantas coisas eu escolhi: as cores das flores na igreja e para a decoração do salão de festa, o modelo dos convites, os pratos que compunham o Buffet, as bebidas – a champanhe liberada que pesou nos nossos bolsos (meu e do meu marido) no acerto de contas após a festa. Enfim, tantos detalhes e preocupações que deixam apenas a recordação barata e construída nas gravações, nos álbuns de fotografias e nas memórias daqueles que foram convidados para a festa, logicamente, em inúmeras versões. Mas, voltando às experiências do luxo que penso ter vivenciado para chegar a um programa de mestrado com algumas sustentações que mereceram destaque e atenção das qualificadas professoras titulares da minha linha de pesquisa, destaco aqui uma vivência que agrega luxo (e sim, o casamento é uma cerimônia sempre luxuosa, seja nos espaços mais adornados e sofisticados, seja debaixo de uma árvore ou beira-mar) e perfumaria. Eu digo, para todos que me perguntam sobre perfumes, que não confiem em questionários sobre perfumes contidos em revistas de moda. Mais tarde, vou explicar o porquê.
            Contudo, eu já confiei, e, justamente porque confiei é que recomendo para não fazerem o mesmo. Para mim, o casamento envolvia uma alquimia pessoal, uma mistura do ritual que envolvia a cerimônia tradicional – a igreja, as alianças, o bolo, os drinks, etc – e o estabelecimento de um contrato consentido de lealdade a partir de sentimentos mais profundos. E digo lealdade, pois, considero este um sentimento portador de um significado singular, que está, para além da fidelidade, por exemplo, porque envolve tudo isso, além do companheirismo, do respeito mútuo e do amor. Tal prerrogativa justifica, para mim, o fato da traição ser uma ação sem sentido. Enfim, a discussão é psicológica ao extremo, e seu desenlace levaria páginas e páginas de reflexão, o que, por hora, não vem ao caso. Bem, eu já disse que comprei perfume confiando em questionários duvidosos sobre aromas da perfumaria, que, por vezes, encontramos nestas revistas de moda e maneiras, voltadas para o público feminino. Pois é, foi desta vez, a primeira vez que isso aconteceu. Eu li, há algum tempo, em uma dessas revistas qualquer, penso que era uma “Contigo”, mas, não tenho certeza, depois de responder a algumas perguntas referentes ao meu gosto pessoal, que desembocariam na escolha da fragrância certa para mim, que, um perfume que eu deveria usar era “Les Nuits d’Hadrien”, da grife francesa de alta perfumaria Annick Goutal. Contava no resultado que, este perfume, inclusive era usado pela diva do pop, Madonna, cantora por quem tenho um certo apreço em sua performance e nível de exposição estética no palco (este é outro assunto, para outro momento). Uma das notas que compunha o perfume era a base de Ylang Ylang, uma essência aromática oriental, conhecida por suas conotações representativas de sensualidade, envolvimento, sedução, e outros descritos na revista e que não lembro bem certo. Para resumo da ópera... eu queria casar usando aquele perfume! Eu precisava usá-lo, como símbolo de lealdade, mas também como sentimento de mulher convencida pelo discurso de uma revista a usar algo que não conhece, e porque eu o entendi como referência de glamour e sofisticação. “Gente! A ‘Madonna’ usava!”
            Enfim, eu precisava descobri-lo, pois era o “meu perfume”, e eu ia fazer de tudo. Para variar, já que naquele momento eu vivia o êxtase da cosmética e perfumaria nos sites de compra on-line, fui buscar informações sobre o referido perfume. Encontrei site da grife francesa (em francês, obviamente, o que era um luxo puro para mim!), descobri que todos perfumes da grife eram confeccionados de maneira quase que artesanal, que a empresa da perfumaria havia passado de mãe para filha – de Annick para a sua filha Grabrielle Goutal, e que pouquíssimos frascos eram exportados, de modo ainda que os perfumes podiam ser encomendados na loja da grife, localizada em uma das ruas chiques de Paris. Um detalhe me gritou ao olhar nestas informações e nas imagens que busquei no Google: as publicidades (afinal, eu sou uma comunicadora, e, estudei por quatro anos um pouquinho de semiótica e semiologia durante o tempo em que estive na faculdade) eram diferentes daquelas que eu costumava ver nos sites de venda on-line de perfumes e cosmética, e também daquelas que eu via em Rivera. Eram mais simples, voltadas para o frasco do próprio perfume e suas cores, e não dos corpos esculpidos, quase desnudos e sedutores das famosas internacionais. As preocupações daquele segmento de perfumes eram bem diferentes das que eu costumava ver, e, consequentemente, as estratégias mercadológicas. Realizei uma grande busca, em todos os sites que eu conhecia relacionados aos perfumes e cosméticas, e nada encontrei. Nenhum deles vendia aquela marca. Era o ano de 2007. Lembro que mais ou menos um mês antes da data do casamento, meu marido foi viajar para a fronteira com o Paraguai, e ele, junto com um colega de trabalho (aliás, o Alexandre foi nosso padrinho de casamento) tinham além da missão da Força Aérea, a missão de encontrar meu perfume. Inclusive, o Alexandre, que é de São Paulo, cidade de São José dos Campos, pediu para sua mãe tentar encontrar o perfume por lá, mas a tentativa foi sem sucesso, assim como a tentativa no Paraguai. Segundo eles me contaram, foram por todas as lojas que poderiam encontrar este perfume (que também não tinha em nenhuma loja de Rivera, porque eu tentei por lá), mas nada conseguiram. Foi quando realizei uma segunda pesquisa na internet, via Google, e encontrei uma lista no próprio site da Annick Goutal, que não tinha visto da primeira vez, pois, só comecei o curso de francês um ano depois disso, com os endereços e telefones de venda em alguns lugares do mundo. Encontrei uma loja que revendia, com matriz em São Paulo, no chiquérrimo Shopping Iguatemi, e sua filial, no Shopping Cristal, em uma loja chamada Petit Parfum, advinha onde? Na terra natal do meu marido – Curitiba! Eu fora “salva pelo Gongo!” Na mesma noite, liguei para minha querida sogra – Maria Angélica, detalhando para ela o nome do perfume, a marca, a importância de buscá-lo e, o principal: onde encontrá-lo. Dada a minha ansiedade, no dia seguinte, ela, por toda sua sutileza como pessoa e por ser também uma mulher vaidosa, foi tentar encontrar o valioso perfume. Para “felicidade geral da ‘nação’ ligada ao casamento”, ela teve sucesso e encontrou. Ganhei dela, como presente de casamento, afinal, eram 300 reais para 30ml da raridade. Ela me contou ainda que a vendedora comentara com ela que vinham apenas 100 frascos por ano dos perfumes daquela marca para serem vendidos na loja. Radiante, e usando muito deste perfume, enfim, eu casei, e o uso sempre que posso. Para minha sorte, o cheiro é realmente maravilhoso, e eu adorei. Contudo, é um perfume de verão, uma fragrância um pouco cítrica, mas, muito marcante, pois, dura horas na pele, e, por isso, vale cada centavo pago por ele. É uma fragrância como poucas, e é também, um dos perfumes que Madonna também usa!
            Passados três anos do casamento, agora já mais rotineiro, mergulhado na difícil habilidade de manter a paixão e, ao mesmo tempo, ver a cara amassada um do outro pela manhã, pagar as contas no final do mês, ir ao supermercado, ao médico, à farmácia, adoecer e pegar resfriados fortes neste clima louco de Santa Maria, mantendo ainda a excitante sedução nos momentos em que se pode. Belo dia de 2010, estou eu, navegando no on-line, agora, totalmente incorporado no meu cotidiano, incrementado lascivo com o uso das redes sociais, regresso ao site Sacks.com.br, para dar uma olhadinha nas novidades. Repassando a barra pendular lateral que contém, em ordem alfabética, todas as marcas que o site dispõe de produtos para venda, encontro, surpreendentemente, logo no início, Annick Goutal. O nome, que até então me conotava a “crème de la crème” da perfumaria francesa de luxo, quase inatingível e intocável, aparece como parte de um site de vendas de perfumaria e cosmética, para o Brasil inteiro, e quem sabe alguns países vizinhos, vendendo, inclusive, o meu tão procurado “perfume de casamento”, em uma larga escala da produção em série. Sim, porque com 100 frascos por ano eles, certamente, não sustentariam as vendas num site de vendas on-line. Foi o fim. Perdeu parte do glamour que eu ostentava ao dizer que tinha um “Annick Goutal”, com sua publicidade diferenciada em condições imagéticas e textuais, exemplo que citei inclusive em um trabalho de semiologia que apresentei em uma das disciplinas que compunham o programa da minha especialização em Comunicação e Projetos de Mídia. Sim, o Annick Goutal perdeu seu misticismo, um pouco do seu brilho e de seu esplendor exibido nos tons de dourado que compõem seu frasco. Agora, eu tenho um frasco também vendido na Sacks, mas, mesmo assim, um perfume ainda muito diferenciado.


[1] Do francês, significa panificadora.

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